Carta aberta a D. Carlos Azevedo
Excelentíssimo, Reverendíssimo D. Carlos Alberto de Pinto Moreira de Azevedo,
Recebi ontem, pelo facebook, a notícia do Expresso que o indicava como acusado de assédio sexual de seminaristas. Não posso dizer que fiquei particularmente surpreendido. Pessoas que conheço ligadas à Igreja tinham referido em conversa particular episódios desse tipo na diocese de Lisboa, sem referir nomes, indicando também a forte possibilidade de D. Manuel Clemente vir a ocupar num futuro próximo o cargo de Patriarca, logicamente preterindo-o a si como Bispo Auxiliar.
Não sendo grande conhecedor da hierarquia eclesiástica no nosso país, na altura não liguei essas informações ao seu nome; aliás nem nunca tive a possibilidade de o conhecer pessoalmente.
Agora, perante o que veio nos meios de comunicação social, tudo se encaixa.
Penaliza-me que o nosso Patriarca alegadamente soubesse da situação e nada fizesse, que nos fosse visível; tal como D. Januário Torgal Ferreira o qual, segundo os meios de comunicação social, também dela saberia. Segundo todas as probabilidades, D. Manuel Clemente também estaria informado da sua possível vinda para Lisboa e dos seus motivos, o que nos leva a congeminar que talvez toda a Conferência Episcopal assim o soubesse.
Penaliza-me igualmente que o Rev. Pe. Nuno Ferreira da Silva tenha escondido o seu segredo por algumas décadas, usando-o agora (alegadamente) para impedir o seu acesso ao Patriarcado, numa notícia que sai poucos dias depois do anúncio da renúncia do nosso Papa. Imagino-me numa situação idêntica e penso que semelhantes acções teriam consequências em segundos deixando marcas visíveis por anos na face de quem me tentasse assediar. Numa primeira análise acho a atitude dele bastante cobarde e a sua, se for verdade, bastante repugnante.
Mas não me cabe julgá-los. Deus os está julgando e continuará a julgá-los por toda a Eternidade.
Mas há, contudo uma frase, que me deixou ainda mais enjoado, a ser verdadeira. É a manchete de hoje, do Correio da Manhã, em que, a ser verdade, V.Ex.ª Rev.ma: “Querem Destruir-me”.
Se a frase é sua, demonstra, senão a culpa, pelo menos uma grande inversão na sua ordem de valores. Querem destruí-lo por quê e para quê? E se o quiserem mesmo destruir, qual é o problema? Não destruíram a Cristo? Preocupava-se Jesus Cristo com o ser chamado de comilão e beberrão, amigo de publicanos e de meretrizes?
Se o quiserem destruir, é uma oportunidade que lhe dão de cumprir o Ministério que voluntariamente aceitou.
A sua preocupação, permita-me que lhe diga, devia ser não consigo, mas com a Igreja que jurou servir. Uma Igreja que neste momento perde consigo e com os que consigo colaboraram na ocultação de semelhantes episódios, grande parte do seu papel no auxílio espiritual e no consolo de uma população que sofre. Entre governantes corruptos e pastores concupiscentes, para onde correremos nós?
Recordo-lhe uma simples frase da Escritura, referente aos bispos: Oportet autem illum et testimonium habere bonum ab his, qui foris sunt, ut non in opprobrium incidat et laqueum Diaboli. / Mas é necessário também que ele goze de boa reputação entre os de fora, para não cair no descrédito e nas ciladas do diabo. (1 Timóteo, 3,7).
Não importa aqui se se é culpado ou inocente: o foco aqui é a sua reputação, que está neste momento indelevelmente manchada.
Mais do que provar a sua inocência, é mister que renuncie.
Da mesma forma que é mister que façam penitência todos os que, por cobardia, comodismo, ou por qualquer motivo idêntico, colaboraram com V.Ex.ª Rev.ma, através do seu silêncio.
Ontem fui ridicularizado como Católico por sua causa - não por causa do Cristo, mas por sua causa. E não gostei. O próprio Cristo, foi uma vez mais crucificado por sua causa.
Ontem finalmente percebi como foi possível uma população esmagadoramente católica, participar, ou pelo menos assistir passivamente, às atrocidades cometidas contra o clero, na Revolução Francesa.
Devolvei-nos a confiança em vós.
Do seu irmão em Cristo,
Alexandre Ribeiro dos Santos
Boa tarde, como posso contactá-lo? Marta Reis, jornal i - marta.reis@ionline.pt
ResponderEliminarRespondi-lhe por e-mail para aquele que me indicou.
ResponderEliminarSinto-me sumamente perturbada! Na verdade todos nós católicos uns mais do que outros conhecemos podres graves de elementos da igreja, que por sermos católicos fomos ocultando ao longo dos anos, achando que fazemos a nossa parte quanto ao Amor e à Misericórdia. No entanto dou-me conta, que sempre que calamos, usando desse mesmo Amor de Cristo, estamos muitas vezes a colaborar num sistema corrupto onde os possíveis inocentes passam a culpados e os culpados ocupam escandalosamente posições de exemplo imerecidas.
ResponderEliminarO Alexandre Santos, enquanto autor deste blogue referiu "Penaliza-me igualmente que o Rev. Pe. Nuno Ferreira da Silva tenha escondido o seu segredo por algumas décadas, usando-o agora (alegadamente) para impedir o seu acesso ao Patriarcado". Duvido que seja como diz, mas ainda que assim fosse, não lhe parece que é UM DEVER daqueles que detêm “esses segredos” como diz, que os revelem em qualquer altura, e sim, para impedir que pessoas que lesam outros, sejam impedidas de lesar muitos mais, em cargos que revoltam os detentores desses mesmos “segredos”? Pois Digo-lhe que muitas vítimas escondem seus segredos durante anos e nunca as vi tornarem-se por isso culpadas. Só lamento é que muitos fiquem tão traumatizados e constrangidos, magoados e sejam de tal maneira oprimidos e lhes seja solicitado o silencio para evitar o escândalo que tenham de viver sozinhos com a dor e até a vergonha, que a consciência dos que são culpados é que deveria carregar. Infelizmente, a maioria dos culpados, tem mentes que rapidamente os iliba das suas faltas e banaliza os seus atos, já para não falar que usa do Amor de Deus para se justificar, mas essa mesma mente, não consegue ou recusa-se a ver os prejuízos colaterais que provoca. Isso é que é repugnante estimado Alexandre, que eles o façam repugna-me, que o povo os apoie, revolta-me.
Caríssimo Alexandre quero, depois da exposição anterior, dizer-lhe no entanto que concordo plenamente com as suas palavras quando diz: “Se o quiserem destruir, é uma oportunidade que lhe dão de cumprir o Ministério que voluntariamente aceitou. E concordo ainda quando refere que “ A sua preocupação (…), devia ser não consigo, mas com a Igreja que jurou servir”. Pois pena tenho de neste momento não poder comentar palavra a palavra o que o Sr Bispo disse à Tv e ressaltar o asco que me causaram, mais do que a realidade da sua (ao que parece já conhecida no meio) homossexualidade ou qq ato daí advindo. Porque nas suas palavras o Bispo revelou teoricamente a sua natureza, de uma forma antes desconhecida. Esse novo ângulo não o favoreceu em nada. Pois eu percebi exatamente na mesma altura que o Alexandre (“Ontem finalmente percebi como foi possível uma população esmagadoramente católica, participar, ou pelo menos assistir passivamente, às atrocidades cometidas contra o clero, na Revolução Francesa”) que em prol de uma boa moral e imagem da Igreja aqueles que colaboraram neste assunto e noutras tantas atrocidades com o SILÊNCIO, não deviam adormecer na plena paz de um dia de um dia evangelizador, porque o silêncio deixou de servir O AMOR, o que significa que não está a servir a DEUS uma vez que ELE é O Amor. Eu caro Alexandre, poderia dizer “Ontem fui ridicularizado como Católico por sua causa - não por causa do Cristo”, mas é muito pior do que isso, porque não foi só ontem, nem será só amanhã… enquanto a Igreja não tiver uma posição firme e concreta e legislada, todos nós estamos sujeitos a ser palhaços nas mãos, não dos outros, mas dos nossos, ou seja dos próprios católicos.
ResponderEliminarResta-me dizer que concordo com quase tudo o que escreveu... Em relação ao silêncio, apenas, para aliviar o tom do discurso, lhe vou contar uma história verídica que aconteceu com um pedreiro que conheci há uns anos, marido de uma porteira, pessoa simples mas de uma sabedoria prática admirável. (Isto foi ainda antes da era dos telemóveis.)
EliminarEm certa altura, num dos andares do prédio em que o dito casal morava, um arrendatário resolveu instalar uma casa de passe. Era um corropio de homens a entrar e a sair, o elevador não paravam, e os inquilinos queixavam-se.
Esse meu conhecido não sabia o que fazer... A mulher andava nervosíssima com tudo aquilo. Chamariam a polícia? Confrontariam as pessoas? Como evitar o escândalo?!
Até que ele se lembrou de uma solução simples: Desligou a campainha exterior desse andar. Os clientes chegavam, tocavam à campainha, e como ninguém atendia, iam-se embora. Aos donos do negócio, apenas dizia que não conseguia, de momento, ver onde estava a avaria. Até que, pressionados pela falta de clientela, os tais se foram embora, e o prédio regressou à calma habitual.
Conclusão: para quem se vê ou viu assediado, haverá sempre maneiras de expor o assédio ou de acabar com ele. É tudo uma questão de determinação, perseverança, alguma imaginação e da aceitação de uma certa dose de risco.
Repito que me repugna o silêncio, não sendo insensível ao sofrimento. Mas a coragem terá de romper o silêncio.
Preocupa-me também o timing e a natureza do fenómeno. De repente, como que por magia, surgem relatos dessa natureza em todo mundo Católico. Para além dos factos, ou das suposições, interrogo-me sobre a natureza e objectivos do fenómeno na sua globalidade.
Para essa interrogação, mais do que para todas as outras, gostaria de ter a resposta.
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