segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal

A equipe dos Novos Rolos deseja a todos os seus leitores, comentaristas, críticos e afins, um santo Natal. Continuamos a contar com a vossa participação.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Obrigado a todos ...

... os fans da nossa página do Facebook e a todos os leitores do nosso blog pelas mais de 500 visualizações. Não deixem de participar com as vossas opiniões, mensagens ... e de convidar os vossos amigos!


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Vendas Online

Para todos aqueles que moram longe dos pontos de venda, informamos que "Os Novos Rolos" também se entregam pelo correio. Podem fazer os pedidos directamente para o email CausadasRegras@gmail.com da editora, com pagamentos por transferência bancária ou paypal.
Veja mais na página da editora no Facebook.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A montra da Sá da Costa

Corria o ano de 1912. A República tinha sido recentemente implantada e procurava legitimar o seu assalto ao poder através de uma historiografia própria, ainda que incipiente. Borges Grainha, que desde 1886 tinha interrompido uma carreira eclesiástica na Companhia de Jesus, procurava agora, junto com os seus colegas republicanos, dar razão a um odiado Afonso Costa e a uma legislação que não só pecava por injusta, como por inteiramente inadequada à realidade nacional. De França tinham vindo a popularização da maçonaria, as iniciações em massa, a corrupção; o ateísmo e o anti-clericalismo maçónico, e uma nova e aberrante Constituição.
Havia que distorcer o passado recente para além dos limites do possível. Inventar História, a pretexto da sua escrita. Historia-se então a Maçonaria, cuja discrição ou secretismo se prestavam à manipulação dos factos, à invenção. Cria-se um inimigo a abater em São Miguel da Ala. Demonizam-se os Jesuítas. Justifica-se, ainda que indirectamente, o Regicídio. E chama-se a tudo história: História da Maçonaria, escrita e em grande parte criada pela pena de Borges Grainha.

Nem de propósito, corria o ano de 2012. Uma terceira versão da República havia sido implantada havia mais de 38 anos - Uma data que acompanhava de perto o regresso da Maçonaria aos cargos públicos, a sua popularização, e uma nova, e desta vez ainda mais avassaladora vaga de corrupção. Agora a política não é ditada apenas pela França, mas junta-se-lhe uma Alemanha impiedosamente capitalista na condução dos destinos portugueses. Fabricam uma dívida. Não nos mandam combater um inimigo que não é nosso, mas querem-nos submeter à condição de mão-de-obra barata...
Novamente há que recordar a História, a mais antiga e a mais recente, ambas submergidas por camadas historiográficas de apoio ao regime, ou de conformismo cobarde. Não se podendo fazer verdadeira História, faz-se ficção. Mas uma ficção que mantendo a essência dos acontecimentos, dos processos, e de alguns factos, não deixa de ser História. E surgem “Os Novos Rolos”, os quais, atestando o bom-humor de quem conduz os destinos da humanidade, vão precisamente ser colocados, pelos livreiros da “Sá da Costa”, ao lado das impiedades de Borges Grainha... Como se cem anos depois, este ciclo tivesse o seu fim.
Que assim seja.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Areópago


- E o areópago?
- Ah, é verdade, o areópago!


Sentia-me já livre para o almoço, mas fui desta maneira acordado para a realidade. Sujeitei-me.

- Vamos. É aqui mesmo em frente.

Tentámos ler a placa, mas várias letras de bronze tinham sido roubadas. Recordei algumas passagens dos Actos dos Apóstolos. Procurei fazer com que todos imaginássemos a discurso de Paulo, o seu contexto e o impacto que teve. Perguntei se algum deles conhecia o Almeida Garrett, a propósito do poema Ignoto Deo. Desisti imediatamente para que ninguém se sentisse mal, ou me achasse demasiado esquisito. Um dos miúdos da comitiva salvou-me do silêncio ao insistir:

- Temos de ir lá acima!
- Vamos, mas cuidado. A rocha é muito escorregadia.


Em fila indiana subimos os pequenos degraus talhados na rocha calcária. De repente, uma das chinesas que ia à minha frente desequilibrou-se. Estendi-lhe a mão, mas não consegui evitar a sua queda, e acabei arrastado para o chão. A chinesa levantou-se e agradeceu a tentativa de ajuda. Eu tentei-me levantar, mas não consegui. Dois do meu grupo ajudaram-me a descer. Cheguei cá em baixo com um tornozelo inchado, e o meu orgulho ferido.

Os Novos Rolos saíram à rua...

É verdade... "Os Novos Rolos" já estão à venda em Lisboa! No Chiado, na rua Garret nº 100, na tradicional Livraria Sá da Costa, agora em fase de renovação. E deixámos alguns exemplares para a venda de Natal da Igreja da Graça, com lucros a favor da conclusão das obras da igreja.

Seja pelos Rolos, seja conservação da igreja, e pelas muitas outras coisas que lá se vendem (recomendamos os postais e as marcas com as imagens, azulejos e pinturas da igreja e convento), vale a pena uma visita.

Agora, ao olharmos para as nossas próprias fotos, não deixámos de reparar numa coincidência engraçada: Na Graça são honrados com a companhia do Santo Padre... Na Sá da Costa, olham de soslaio e com um certo desdém para as enormidades do maçom Borges Graínha... Ainda agora viram a luz e já têm de suportar semelhante companhia!!!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Esplanada em Plaka


Nalgumas mesas, casais percorriam os guias de viagem em busca de locais de interesse, ou abriam os sacos, para uma segunda olhada às bugigangas que tinham comprado nas lojas ao lado. Para mim não havia esse fascínio da descoberta. Já lá tinha estado algumas vezes. Sentia-me grego, ou pelo menos, aquilo que achava que os gregos sentiam. Para completar o cenário pedi um frasquinho de ouzo e um jarro com água gelada. Ainda hoje me admiro como é que dois líquidos transparentes se conseguem misturar formando uma bebida quase branca.
Prolonguei a estadia o máximo que pude, isto é, até a água deixar de estar gelada e o refresco perder o interesse. Sabia lá quantos anos iriam decorrer até voltar àquela esplanada.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Antiquário de onde vieram os pergaminhos




Coisa engraçada, a loja não era, nem um daqueles armazéns de coisas feitas em série para os turistas, nem um verdadeiro antiquário, onde cada peça estivesse arrumada e cuidada, demonstrando o seu valor. Era uma espécie de manta de retalhos, onde tudo estava misturado e, presumo, difícil de achar. Pensei: eles assim não se safam. No meio do caos, o vendedor procurava, com pouco sucesso, prender a minha atenção. Tudo era raro, antigo e preciosíssimo. Tudo tinha um preço especial para mim, especialmente por eu ter dito que era português (ou melhor, não-turco, que esses pagam mais caro nestas paragens).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Plaka


Plaka: Apesar de ser um dos destinos turísticos mais frequentados, a zona ainda oferece algumas esplanadas frescas e tranquilas, bem como lojas de produtos pitorescos. Pelo menos arrumava a parte dos souvenirs.

Meteora

...sonhei com o padre Damião, na Grécia. Ele era ortodoxo e estava num mosteiro em Meteora (na verdade ele tinha trazido de lá um livro sobre o local e eu tinha-lhe dado uma vista de olhos). Era monge num daqueles conventos minúsculos construídos sobre os penhascos rochosos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Entrevista ao Autor

Veja aqui a explicação dos principais assuntos tratados em Os Novos Rolos, em forma de entrevista.

O Espaço e as Personagens

1. Porquê a escolha da Grécia como cenário para o início?

Visitei a Grécia pela primeira vez como viagem de fim de curso, no liceu, tinha então 17 anos. Fiquei fascinado com o clima, com as paisagens, com a gastronomia, mas especialmente com a simpatia dos gregos. Nessa altura ainda se vivia em Dracmas e conseguiam passar-se umas férias verdadeiramente baratas. Andávamos em excursão e fiquei com imensos sítios debaixo de olho para visitar novamente, com calma. Assim que consegui reunir alguns amigos e o dinheiro suficiente, voltei, já no meu próprio carro (sim, fomos de carro para a Grécia), por duas vezes. A última foi em 2004, durante as olimpíadas. Foi então que conheci Meteora. Plaka tinha visitado na primeira vez. A escolha acabou por ser natural. Ao longo destas três visitas, observei o custo de vida subir exponencialmente (tal como em Portugal) e o turismo a decrescer. Nesta última,e já lá vão quase 10 anos, era assustador: com a subida dos preços do combustível, as pessoas deixaram de passar de ferry com carros e auto-caravanas, a partir de Itália. Então, toda aquela faixa costeira, que vai de Igoumenitsa (onde param os ferries) até Corinto, cá em baixo, onde antes fervilhavam parques de campismo e restaurantes, estava praticamente abandonada.

Os que sobreviveram, estavam completamente decadentes. O Euro matou-os e as pessoas começaram a ir de avião para destinos fixos, com pacotes de tudo pago. Era triste. Nem imagino o que se tenha passado de lá para cá. Escolhi a Grécia pela óbvia associação de ideias com Portugal, na situação que ambos atravessamos, e pela afinidade que sinto com esse país, onde poderia, sem dificuldade, viver como em casa.

2. O que há de auto-biográfico neste livro?

É uma pergunta difícil. Digamos que, para além de todos os cenários, onde efectivamente estive, há um bocadinho de mim em todos os personagens, uns mais do que outros, evidentemente... Dizem que, de médico e de louco, todos temos um pouco... Pois eu fui agricultor, como o Tomás. Não fui padre, mas fui catequista e convivi de perto com eles. Fui professor universitário, como o Armando. Só não fui militar, mas como lidei com o meu pai em toda a minha juventude, fiz o serviço militar em casa. Faço surf como o José e, tal como ele, cresci nos anos 80 a ouvir Heavy Metal. O resto são características de pessoas com as quais fui convivendo de perto, as quais, na preservação possível das suas identidades, não vou referir.

3. E as mulheres?

Sim, todos temos um lado feminino, e elas terão o seu lado masculino, também.

4. Como construiu a Rita?

Foi um processo divertido. Existe, de facto, uma dadora do nome, mas cujo aspecto e personalidade serão o oposto da “minha” Rita. Escolhi-o, no caso de ela vir a ler o romance, como “private joke”. Depois somei quatro amigas e uma ex-namorada, tentando dar algo de meu também, na forma de ver o mundo e a espiritualidade. A ideia do cancro, vivi-a de perto, em várias pessoas que me rodearam. É uma espécie de homenagem a quem o vence (o que não significa necessariamente a quem lho sobreviva). Depois tentei fazer um complemento possível para um José enérgico, honesto e relativamente imaturo... É como aquela frase do Tom Waits, na “Martha”: Cause we were all so young and foolish, Now we are mature. E ela foi saindo.

5. Foi fácil colocar-se na pele de um padre, ou melhor, de vários padres?

Nunca é fácil assumirmos uma identidade, uma natureza, que não é a nossa. Mais uma vez, o que eu fiz foi recorrer a uma soma de leituras e experiências. Começando pelas segundas, o mais perto que estive da vida de um padre foram algumas semanas passadas junto da comunidade beneditina no mosteiro de Singeverga. Aí tive oportunidade de participar na liturgia diária, de acompanhar as refeições... Foi lá que terminei a minha tese de doutoramento e era então o ambiente necessário para criar a distância do trabalho e lhe dar uma revisão geral. Digamos que foi onde fui buscar parte do ambiente. A partir daí, tentei apanhar alguns tiques de outros sacerdotes com os quais fui convivendo em ambientes distintos, para dar aos meus alguma “personalidade”. Mas no geral, os padres que descrevo, são personagens-tipo. O padre Zeferino representará uma fé virada para as obras, à semelhança da carta de São Tiago. O padre Osório tem uma vertente mística que fui buscar, de forma muito indirecta, a São João da Cruz. O padre Luís, oscila entre a descoberta da sua própria fé e a entrega do Cura d’Ars. O padre Joaquim andará entre a prédica de S. Josemaria Escrivá e Monsenhor Giussani, mas temperado com a imagem que eu faço de um padre “à antiga”... O Damião será talvez, o menos espiritual deles três, um funcionário do clero bem disposto, sobre o qual não aprofundo a caminhada. Tentei imprimir a todos o maior respeito que tenho sobre o clero,e torná-los o mais possível “reais”.

6. E o enredo? Como lhe surgiu? De Santos-o-Velho a Chiswick é um percurso longo...

Um percurso à semelhança do meu próprio percurso. Santos-o-Velho foi uma igreja que frequentei durante alguns meses que passei em Lisboa. As relíquias dos Santos Mártires pareceram-me um mote para iniciar toda a viagem. Já em relação a Chiswick, este livro foi sendo escrito intercalado com a minha tese... E é normal que os caminhos se cruzem. Ora esta última é, antes de mais, o relato do combate político, dogmático e estético entre a Igreja e a Maçonaria no séc. XIX em Portugal. Ao investigar as origens da Maçonaria inglesa, apareceu Chiswick House, como edifício, o qual desempenha um papel fundamental na sua definição estética e dogmática, no séc.XVIII. Richard Boyle, ou Burlington, o seu construtor, é referido nas primeiras constituições de Anderson (as primeiras, para a Maçonaria), como um dos mais talentosos arquitectos, e é de crer que essa casa serviu de templo maçónico.

Quando investiguei as causas da Revolução Francesa, descobri toda uma manobra conspiratória orquestrada a partir de Inglaterra com o objectivo de minar o Absolutismo tendo a Maçonaria como veículo. E dentro desta, existiram alguns personagens com uma vertente mais mística que animaram os salons da corte e da nobreza francesa antes da Revolução. Aí entra o José Bálsamo (o verdadeiro e o do Alexandre Dumas), ou Cagliostro, aí entra Claude de Saint-Martin. Partindo destes cheguei aos teosofistas, a Swedenborg, e depois aos artistas por ele influenciados. Destes, William Sharp encaixava-se perfeitamente no papel que lhe destinei. O ter, de facto vivido em Chiswick veio mesmo a calhar.

7. Então a sua investigação é parecida com a do padre Luís?!

Nem mais. Apenas lhe modifiquei ligeiramente os objectivos (neste caso a compreensão da origem dos rolos) e simplifiquei-lhe o percurso. Mas, fora alguns pormenores, elas são idênticas.

8. E Alvalade do Sado? Com tantas paróquias em Portugal, porque escolheu essa?

Simplesmente porque é uma das paróquias mais perto de casa, onde por vezes assisto à missa. Aqui há uns anos havia um padre que celebrava lá missa e me parecia permanentemente triste. Imaginei-lhe os motivos da tristeza, perante a assistência que me rodeava, e inventei-lhe um coadjutor. ... O qual, segundo creio, nunca chegou a existir. Mas o facto é que o dito sacerdote foi substituído. Por outro lado, achei engraçada a assimetria do arco quebrado que separa o corpo da igreja do Santíssimo. Era um pormenor a incluir...

A Estrutura da Obra e os Conceitos-Chave

1. Por mais do que uma vez, menciona Umberto Eco e O Nome da Rosa no seu livro... Foi importante para si, a sua leitura?

Não sei que idade tinha, mas devia ser muito miúdo, quando vi o filme. E causou em mim uma impressão que dura até aos dias de hoje. Claro que hoje “leio-o” de outra forma. Naquela altura houve um fascínio pela sua estética mas, mais do que isso, embora eu não o conseguisse compreender, aquele choque de mentalidades que é descrito, manteve-se em mim latente, até que o pude estudar com calma e compreender. A obra de Umberto Eco pode ser lida como a exposição das diferenças na maneira de pensar entre, por um lado, a comunidade Beneditina e os enviados do Papa, e por outro, os franciscanos, nomeadamente William of Baskerville. Os primeiros caricaturam uma lógica dedutiva, aristotélica, ou melhor, tomista, alicerçada na interpretação das Escrituras, temperada com aquilo que o autor chama, noutro livro, de Pansemiose Metafísica medieval. O segundo representa o alvorecer de um pensamento “científico” que privilegia os dados materiais... Não é acidental a inclusão, no filme, das suas observações astronómicas feitas com um astrolábio, através da janela da sua cela.

No filme, até mais do que no livro, a Igreja é representada como força ao serviço do obscurantismo, guardiã de saberes ocultos, punitiva, ilógica e desarrazoada, enquanto que o herói, com a sua observação metódica, repõe uma “verdade” científica, lógica e razoável. Isto é-nos apresentado desde cedo na escola como uma verdade, corroborada pela História. Só que, confesso, nunca gostei dessa verdade, nem dessa forma de ler a história.

Quando escrevi Os Novos Rolos, fi-lo também como manifesto metodológico, voltando, se assim o quisermos, a tese doNome da Rosa ao contrário. Aqui o herói é um padre que, privado de todos os meios “materiais” para a sua investigação (até os próprios rolos lhe são tirados), embarca num percurso meramente dedutivo, sem suporte que não seja o grau de probabilidade ditado por um bom senso, uma “consciência”. A frase em que contrasto o trabalho do Padre Luís com os laboratórios do C.S.I. é um resumo bem intencional.

Umberto Eco, agnóstico, compõe clérigos sem Espírito Santo, o que é uma falha gravíssima. Sem Ele, todos perderiam, à partida toda a sua razão de ser. Porque existiriam clérigos de uma Igreja sem Deus? Pois é esse Espírito que opera com o espírito de cada um para a elaboração de raciocínios e conclusões, que os conduz num emaranhado de dados e conclusões possíveis, à Conclusão escolhida... E é, ao fim e ao cabo, o que tem mantido a Sua Igreja...

2. Então, mantém a tese da oposição do pensamento católico tradicional e o método científico?

De forma alguma... O método científico pode ser útil na comprovação de relações causa-efeito, previamente teorizadas. Permite dotar a humanidade de uma série de ferramentas úteis na sua caminhada. Ele não pode é ser tido como forma de alcançar a Verdade absoluta, na medida em que a forma como é conduzida a experiência, ou a perspectiva do observador, influenciam os resultados. Recordo a brincadeira que fiz com a observação da gravura de William Sharp pelo José, e que acaba por convencer o padre Osório... O quadro existe, está lá. A interpretação alicerça-se num dado material, soma dados verdadeiros ou pelo menos muito plausíveis... Já as conclusões, dando muito jeito para o enredo, dificilmente seriam objectivo para Guido Reni, o pintor da obra original (a qual é efectivamente reproduzida em vez da gravura, por uma questão de direitos de autor). Tudo tem a ver com uma atitude de base do experimentador, que pode ser o espanto reverente e a sujeição, ou a tentativa de manipulação e a arrogância. Neste ponto aproximo-me do padre Osório. A intenção e os frutos são tudo – o processo é pouco significativo.

3. E Dan Brown? Também o refere...

Sim, de facto. Dan Brown é um mero coleccionador de imagens e mistérios, sedutores ao vulgo... Não é um historiador nem um teórico com a profundidade do precedente. Quando se fala em labirintos, Maçonaria, assassinatos de cardeais, conspirações e afins, as pessoas levantam as orelhas...


4. Não é precisamente isso que faz no seu livro?

Bem, no meu livro ninguém é assassinado. Aliás, assassinar cardeais como forma de pressionar uma eleição de um Papa, só mesmo na mente de Dan Brown, ou de um realizador de Hollywood... que aqui partilham do mesmo erro de Umberto Eco: vêem uma Igreja sem Deus e sem Espírito... Esquecem a Omnipotência como atributo e fazem descer tudo ao mesmo nível.

Dos restantes, falo sim, mas numa perspectiva, se quisermos, mais “real”... Eventualmente menos sedutora mas, seguramente, mais didáctica.

O meu herói, ou se quisermos, os meus heróis, são acidentais, como todos os heróis. Uma soma de circunstâncias impele um ser humano, de outra forma considerado “normal”, a dar o seu melhor e eleva-o à categoria de “herói”. Quanto às acções que atribuo à Maçonaria, em Portugal, tirando os rolos, que tanto quanto sei, não existem, o resto foi feito, com pequenas variantes, nos últimos 100 anos e é relativamente fácil de provar.

5. Mas não dá nomes às coisas nem às pessoas...

Não, de facto. Sujeitar-me-ia a um conjunto de eventuais processos cujas custas não poderia, neste momento, pagar. Nem, de qualquer forma, é isso que pretendo. Não ia perder o meu tempo a fazer aqui uma caça às bruxas. Os tribunais se encarregarão disso após uma eventual mudança de regime. ...E nessa altura prestarei os depoimentos que me forem pedidos.

Mas o que queria neste momento era destacar os processos: por um lado, a forma como cada um se olha a si próprio e que o leva a constituir o centro do seu pequeno mundo e a agir como se tudo convergisse para ele... Por outro lado, a forma como Deus escreve direito por linhas tortas, isto é, como perante o somatório de vontades contraditórias dos seres humanos, Ele acaba por sempre produzir bons frutos. É um convite à fé e à sujeição.

As questões religiosas e a exegese

1. Mas é um convite ao mesmo tempo polémico... Refiro-me à forma como trata as comunidades protestantes.

Sim, poderá sê-lo. Contudo as características menos positivas que descrevo, observei-as em primeira mão. Poderão não ser generalizadas nem generalizáveis, contudo existem. O nosso Papa tem posto os pontos nos iis em relação ao ecumenismo. Uma coisa é estarmos permanentemente abertos para o diálogo, para escutar. Outra, é abdicarmos do nosso conceito de Verdade, do nosso caminho para a fé e da nossa identidade. A transubstanciação é um dogma de fé e não pode ser confundida com a mera representação teatral da Última Ceia.

É certo que há versões das Escrituras incorrectas, que enfermam de um dogmatismo apriorístico inaceitável. Falei apenas de uma, se bem me lembro... Mas há muitas mais.... E não podemos aceitar doutrinas construídas sobre esses erros.

Por outrolado, e não precisamos ser homens de fé, podemos observar a importância de Maria na condução dos destinos dos povos europeus nos últimos séculos... É Fátima em Portugal, em França tivemos ao mesmo tempo Lourdes, La Salette, a Rue du Bac, Notre-Dame-des-Victoires... Em Itália a Senhora do Loureto... Mais recentemente, na Herzegovina, Medjugorje... Recorde-se como a intervenção de um reconhecidamente mariano, João Paulo II, precipitou a queda da Cortina de Ferro.

2. E no entanto é você que refere a “Casa de Maria”, ou o seu sepulcro em Jerusalém, pondo em causa a sua Ascensão...

Seguramente não os inventei.... E o dogma da Ascensão, o qual tem relação directa com a sua Imaculada Conceição, não é necessariamente aceite por todas as igrejas cristãs. No entanto, o importante é despertar o leitor para essas perguntas, para que ele encontre as suas respostas e para que a sua fé não dependa daquilo que qualquer um lhe diga. Há que aprofundar a catequese, descobrir os motivos para a fé.

3. Não tem receio de associar a religião e a política?

Eu afirmo textualmente que, A minha experiência de vida e o conhecimento da História mostram que, sempre que a Igreja é associada, ainda que apenas formalmente, a ações políticas, as primeiras ganham e a segunda perde. A Igreja, como instituição, não pode nem deve deixar-se conotar nem associar a nenhum regime. De outra forma, arrisca-se a sofrer grandemente com a sua queda, já que nenhum regime é eterno...

Outra ideia completamente distinta, é o papel que os católicos podem, e devem, ter na vida política nacional enquanto católicos e que resumo nos diálogos sobre o que é e o que poderia ser a democracia cristã.

Hoje, num país maioritariamente católico, não se vê uma expressão democrática desse catolicismo nos órgãos de soberania... É como se os católicos andassem envergonhados de o assumir e de se fazerem representar. A Igreja tem uma doutrina social, o nosso Papa delineou um conjunto de objectivos sociais na Caritas in Veritatee ninguém pareceu querer seriamente levar isso à prática – o que para mim traz duas consequências: ou o país já não é verdadeiramente católico e impõe-se uma nova obra evangelizadora, ou o país é, de facto, católico e não entende a forma de o expressar na sua vida cívica, e então impõe-se uma obra esclarecedora.

O problema, de qualquer forma, já não vem de hoje: com a derrota do legitimismo (católico e monárquico) na guerra civil, em 1834, o catolicismo tradicional ficou associado a um saudosismo miguelista e nunca conseguiu sair dessa conotação, até à República. Alguns, como o conde de Samodães ou Abúndio da Silva, tentaram um catolicismo liberal, mas não foram bem aceites. Depois, o Estado Novo andou de mãos dadas com o Catolicismo, criando nova crise, com a sua queda... Crise essa que dura há 40 anos.

4. Fala de crise política?

Crise identitária, política e religiosa. Da política, é tão óbvio que nem vale a pena perder muito tempo com isso... Da religiosa, vejam-se os resultados práticos na forma dos edifícios construídos desde então... Pela boca do José, digo o que penso sobre a Santíssima Trindade de Fátima e dou mais um exemplo na que se está a terminar em S. Francisco Xavier, em Lisboa.

5. Presumo então que não aprecie particularmente essas obras...

Não, de facto. No entanto não é apenas por uma questão de gosto pessoal... É, principalmente, pela sua inadaptação às funções a que se destinam. No contexto da Reforma Católica, S. Carlos Borromeu publicara, em 1577, Instructiones Fabricae et Supellectilis Ecclesiasticae, um tratado que, servindo-se da tradição medieval, dos originais de Vitrúvio, dos conceitos de Leon Battista Alberti (1404-1472) e das contemporâneas compilações de Palladio e de Vignola, sistematizava e compilava a tradição arquitectónica católica, bem como os objectivos programáticos subjacentes à construção dos templos. Esses princípios materializaram-se em Il Gesu de Roma, construído por Vignola, para a recém formada Companhia de Jesus – a qual, tal como a maioria das que se lhe seguiram, é feita para servir a função de casa de oração, palco da celebração da Eucaristia.

Não interessa se, com melhor ou pior gosto: ela serve uma função! A luz, a cor, a repercussão do som, a delimitação do espaço... tudo nela é feito com um objectivo. É certo que o Concílio Vaticano II veio alterar o ritual, mas a essência mantêm-se... Tal como se mantêm os princípios enunciados nestas obras... E desse modo, quando uma igreja não deixa espaço para genuflexórios nas filas de trás; deixa entrar luz a mais, não exortando à introspecção; se aproxima do conceito dos anfiteatros dos moons ou das seitas brasileiras; mostra um Cristo com aspecto andrógino e tresloucado; afasta os confessionários da área do templo e cria uma atmosfera de sala de espera de hospital... Quando põe o Santíssimo Sacramento em frente à casa de banho... Apresenta um São Pedro maltrapilho nos corredores... Não me parece que sirva dignamente à sua função!

Portanto, quem encomenda e paga obras que não servem os seus objectivos, ou não sabe o que quer, ou não sabe como consegui-lo. Ambas as hipóteses denunciam uma séria crise de identidade.

6. Reparei que, ao longo da sua obra, fala várias vezes de “intemporalidade” e afirma, pela boca do padre Osório, que o tempo não existe. Ainda numa outra passagem refere que o tempo, na Bíblia, anda para a frente e para trás. Quer explicar melhor esse conceito?

O tempo, conforme é vivido pelas criaturas espirituais, sejam anjos ou o próprio Deus, e conforme é revelado aos santos e aos profetas, não existe como existe para nós humanos, limitados pelos movimentos do planeta terra, pelos ciclos de dia, noite, estações do ano, etc.. Muitos, na interpretação das Escrituras, ao esperar ver nelas profecias que sirvam aos seus desígnios, esquecem a afirmação de Jesus Cristo perante os Judeus, quando lhe perguntaram se tinha visto Abraão: antes de Abraão existir, Eu sou! (João 8,58). A passagem é apenas uma das imensas que poderia ter escolhido. Aqui, o presente do verbo ser, que lemos em português, não denota passagem de tempo entre o período de Abraão e o primeiro século. Para Jesus tudo se resume ao mesmo instante – algo que os judeus não podiam compreender nem muitos hoje o poderão. Mas tentemos uma ilustração: antigamente, quando íamos ao cinema, por detrás daquela janelinha lá em cima, estava uma máquina que ia fazendo andar uma bobine de fita e ia passando um filme. A bobine já existia do princípio ao fim, mas foi-nos apresentada de modo sequencial, demorando uma ou duas horas. Também poderíamos cortar o filme às tirinhas e exibi-lo todo ao mesmo tempo numa daquelas paredes iluminadas onde põem os raios-x nos hospitais. O mesmo filme pode ser visto de duas maneiras: uma sequencial (representando a forma como vemos a realidade que nos rodeia) e ligada ao conceito de tempo, e outra instantânea (representando a forma como é visto pelos seres espirituais), à parte do nosso conceito de tempo.

Nenhuma exegese sobrevive sem ter esta distinção em conta – sem ela, a Bíblia tornar-se-á um livro contraditório e confuso, e a religião algo de absurdo, entre a punição gratuita e a adivinhação fútil.

Ao lermos as passagens ditas proféticas, ou este tipo de afirmações de Jesus, temos de ter em conta que são vislumbres dessa realidade, escritos por pessoas ainda presas a uma realidade como a nossa.

Uma vez que considero a compreensão dessa intemporalidade uma das bases essenciais para a explicação da fé, tentei incluí-la, em várias alturas, neste mesmo livro.

A Perspectiva Política

1. Se bem compreendi os capítulos finais do seu livro, toda a revolta da população portuguesa atinge o seu clímax quando o governo aumenta exponencialmente a taxação sobre as oferendas à Igreja, motivado pela prosperidade de Fátima. Como lhe ocorreu essa ideia?

Sinceramente creio que, com pequenas variantes, tal venha efectivamente a acontecer. A História ensina-nos que governos especialmente gananciosos têm buscado na Igreja a satisfação dos seus anseios predatórios. Tal aconteceu, num caso emblemático, no reinado de Filipe, o Belo, com a extinção dos Templários. Em Portugal, recordamos como o preço da Guerra-Civil foi pago, a partir de 1834, com a progressiva extinção dos conventos e casas religiosas e a distribuição dos seus bens pelos apoiantes pedristas. Novamente na República, houve roubos e desvios de bens de igrejas e conventos.

Em França, em 2001, houve a lei About-Picard que, de resto, refiro no decorrer do texto. Nessa altura tinham ocorrido lá uns suicídios em massa dos membros de uma seita e o governo achou que a melhor maneira de impedir reedições era estrangular financeiramente tais organizações.

Cá, na presente conjuntura, depois dos sucessivos governos terem privatizado tudo quanto havia para privatizar, vendido terrenos dos quartéis, Edifícios do estado, e o que mais fosse possível, é lógico que venham a lançar mãos nos bens da Igreja para se sustentarem e para garantir o pagamento aos seus patrões europeus.

A menos que o regime caia rapidamente, será uma questão de tempo...

2. O seu herói, o José, é uma pessoa revoltada. Dispara em muitas direcções. O seu livro é um apelo à revolta? Se assim o é, contra quem?

Construí um José muito terra-a-terra para poder exprimir numa linguagem simples e clara, muitas das injustiças que vivi ou tenho observado de perto nos últimos anos. Empolei um pouco o seu carácter revoltado, ou melhor, exagerei e evidenciei a minha própria revolta por seu intermédio.

Claro que o meu livro é um apelo à revolta... ou melhor, considero a revolta algo inevitável. Procuro, com o meu livro, canalizar essas energias que hoje se observam na população portuguesa, da forma mais positiva que consegui. Interessa-me mais a componente construtiva (o que fazer a seguir), do que propriamente a revolta em si. Procurei não descrever, nem construir, situações de violência, vinganças pessoais ou ajustes de contas, mas calculo que numa revolução real, não poderão deixar de existir. A revolta será contra a classe política (a que está no activo, e a que se tornou gestora das grandes empresas com ligações ao Estado, nas últimas décadas): os que assinaram o Tratado de Lisboa, nas nossas costas; os que canalizaram os fundos europeus para obras inúteis, como os estádios do Euro e as auto-estradas cujas portagens nem temos dinheiro para pagar....

A revolta nunca poderá ser contra as instituições europeias, nem contra os líderes dos outros países, que esses limitaram-se a defender os interesses das populações que os elegeram. Apenas os nossos agiram contra aqueles que os mandataram e, por isso, deverão pagar os preços.

Mas acima da revolta, repito, interessa-me a construção.

3. Em certa passagem fala de democracia como um conceito susceptível de adquirir qualquer significado... É um céptico em relação à Democracia?

“Democracia” é um conceito que tem servido para a legitimação dos poderes instituídos já por muitas décadas. Por isso mesmo, tem adquirido significados distintos, até mesmo contraditórios, segundo os contextos em que é referido. Nos Rolos, por exemplo, falo da República Democrática Alemã, antes da queda do muro, como uso do termo fora do significado que habitualmente lhe atribuímos. Falo também do termo quando usado pelo nosso Papa. Não sou céptico em relação à democracia. Acredito nela quando me é apresentada enquanto “democracia económica”, associada à solidariedade ou à fraternidade, se assim a quisermos chamar, na Caritas in Veritate – uma democracia independente do modelo do Estado, mas aferida aos conceitos de dignidade humana e da tal Caritas; uma democracia que não sobrevive em situações de desigualdade extrema.

Aquilo que entendi da encíclica, de que falo por alto no livro, e que me proporia a construir neste país, ou onde estiver, é essa democracia “moral”. Não apenas uma garantia consagrada numa lei que ninguém cumpre, mas uma obrigação de cada um, de conceder a dignidade e a voz a cada ser humano. E para isso, claro está, é necessária a concessão de um meio de vida minimamente lucrativo e honesto.

Construir a democracia é, não só, mas também, moralizar as leis da economia e, no nosso caso específico, as da actividade bancária.

4. Uma questão a que parece querer fugir no seu trabalho é o que fazer em relação à dívida externa...

Nos diálogos entre os personagens sobre propostas de mudança política, essa questão não se pôs porque não achei que, entre eles, fosse polémica. Em relação à realidade política portuguesa, a questão responde-se a si própria. Houve um tempo em que as moedas dos vários países estavam aferidas a um padrão em ouro, portanto podiam ser quantificadas com facilidade: um país devia a outro x quilos de ouro, e o assunto era pacífico. Hoje em dia essa relação perdeu-se e as moedas estão aferidas umas às outras, em relações mais ou menos artificiais. Neste momento, e falando na generalidade, todas as moedas europeias e norte-americanas estarão sobrevalorizadas em relação ao valor das suas economias, enquanto os países sul-americanos e asiáticos têm moedas sub-valorizadas. Se Portugal deve euros ao Banco Central Europeu, basta esperar por uma inevitável desvalorização do euro (seja por iniciativa do dito banco ou por colapso da economia europeia) para a dívida se tornar irrelevante.

Mas, mesmo à parte deste raciocínio, temos de compreender que as dívidas de uns países aos outros não se destinam a ser pagas e, de um modo geral, nunca foram pagas... Recordo de haver uma dívida de Angola e Moçambique a Portugal, no entanto não me recordo de relatos sobre o seu pagamento. Na prática, uma dívida serve como papão, para impor relações de sujeição que, neste momento, significa escancarar as portas ao investimento estrangeiro, enquanto se estrangulam iniciativas empresariais nacionais que não estejam conotadas com o regime.

No presente contexto, a dívida não pode ser paga porque o quadro legal que enfrentam as empresas, seja de que sector for, não lhes permite sequer gerar riqueza que garanta a sua sobrevivência, quanto mais, gerar lucros capazes de amortizar uma dívida externa.

Com o fim deste regime, qualquer um que o substitua não quererá, nem poderá, num cenário de uma mais do que provável bancarrota, pagar dívidas irresponsáveis de uma classe governante corrupta, cujos objectivos foram apenas o seu enriquecimento rápido e a sua manutenção no poder. Portanto, a dívida nem é susceptível de ser paga, nem será paga. Quando muito, serão responsabilizados criminalmente aqueles que a contraíram, mas isto já é ir longe de mais em futurologia.

5. Como encara essa possibilidade no contexto da União Europeia?

Da mesma forma que o delineei nos “Novos Rolos”. A União Europeia não tem exército e, mesmo que o tivesse, não imagino uma nova invasão francesa, ou um blitzkrieg. As armas da União Europeia são económicas... Agitam-nos um espectro de miséria enquanto nos condenam a uma miséria efectiva. A Grécia está condenada à saída. Se Portugal lhe seguir o exemplo, e segui-lo-á, pois é inevitável, restará aos países centro-europeus a negociação dessa saída como forma de prevenir o colapso das suas economias, ou pelo menos, situações de revolta interna contra os seus líderes. E se estes dois países saírem, não acredito que a Espanha, a braços com a divisão interna, nem a Itália, que já vê aumentar os juros da sua dívida, permaneçam neste navio à beira do naufrágio.

A saída da União Europeia e a renegociação dos tratados que nos unem são tão certas como se já tivessem acontecido.

6. Pelos vistos, preconiza o regresso a uma moeda nacional?

É algo inevitável, se Portugal sobreviver como nação, com um mínimo grau de independência. O Euro, neste momento, não representa o real valor da economia europeia, mas ainda está mais distante de representar o valor da economia nacional. Actualmente, somos um país que perdeu a sua capacidade produtiva, portanto, é um contra-censo termos uma das moedas mais caras do mundo... Para sermos competitivos, temos de ser um mercado pouco atractivo e, ao mesmo tempo, produzirmos bem e barato, o que não se consegue com uma moeda sobrevalorizada. O Estado tem de readquirir a capacidade de elaborar um plano económico e de controlar a inflação, se quisermos sequer sonhar com retoma.

7. Mas com tudo isso, não delineia um modelo de regime... Limita-se a apresentar um regime sucessor, de transição, sem um verdadeiro modelo.

É verdade e foi propositado. Creio que neste momento existem problemas mais prementes do que a descoberta de uma fórmula, ou de um modelo, de Estado. Se pensarmos nos últimos dois séculos de História em Portugal, não foi propriamente o modelo de regime que ditou o seu sucesso ou insucesso. Temos modelos de representação em forma de cortes consultivos com a presença dos três estados, temos unicamaralismos e bicamaralismos, temos formas de sufrágio directo e indirecto e inúmeras alterações nos métodos de contagem de votos e círculos eleitorais. E as épocas de crise sucedem-se na proporção inversa da idoneidade dos políticos. No caso do Estado Novo, seguramente, não foi a existência de uma câmara corporativa, a causa para a sua longevidade.

Numa futura mudança de regime, ter-se-á de assegurar um sistema de representatividade que reflicta a realidade do país, em vez de uma partidocracia podre, em que o mesmo candidato concorre indiscriminadamente a este ou a aquele concelho, segundo as probabilidades de ser eleito pelo seu partido. Mas esse trabalho caberá a juristas, não a mim.

O que quis neste livro foi mostrar que o próximo regime deverá ser implantado por gente de bem, com experiência de vida e de trabalho nos seus sectores de actividade, não por mais uma geração arrivista e gananciosa de políticos profissionais.

8. Fala de implementação de um novo regime... Acha possível?

Acho possível, e até relativamente fácil, mas não pelos meios tradicionais. Em Portugal, neste momento, não se encontram financiadores capazes de montar um novo partido que possa concorrer, de igual para igual, com duas máquinas que funcionam há quase 40 anos, cheias de boys em todos os cargos públicos. E mesmo que existisse, se conseguisse vencer a apatia e o desengano das populações numa campanha eleitoral e por milagre fosse eleito, uma vez no poder, veria todas as suas decisões inviabilizadas por dezenas de milhares de funcionários em cargos não electivos, que acharam os seus empregos como recompensa da sua fidelidade partidária. Qualquer medida que se quisesse tomar seria torpedeada logo à partida.

A implementação de um novo regime far-se-á, no papel, pelo encontro de uma série de cabeças pensantes nas redes sociais e, no terreno, com o apoio das Forças Armadas, como de resto aconteceu com todos os regimes anteriores.